
V – Domingo do Tempo Comum
07-02-2026Hoje, quero dizer-vos duas coisas: a primeira é que cada vez fico mais espantado com a capacidade de certas pessoas para fazerem o mal, para arquitectarem esquemas, para se governarem ou tramarem a vida dos outros, demonstrando uma imaginação, um à vontade, um sangue frio que me deixam de boca aberta.
Num mundo como o nosso, em que há muitas luzes nas ruas, mas uma enorme escuridão no íntimo de tanta gente, e em que por isso, a coberto da escuridão, da falta de referências, de princípios se fazem coisas verdadeiramente inacreditáveis, em que dentro da Igreja “vale tudo” ou tem que valer, invocando a capa do Papa Francisco para justificar toda a espécie de pretensões, (acrescento o desmantelamento da família, e o que a deve estruturar, a desfaçatez dos mais notáveis para nos obrigarem a suportar roubos tão constantes e de monta incalculável), é de fazer a pergunta: – Alguém terá força suficiente para alterar este estado de coisas?
A esta sociedade, que se diz seguir Jesus de Nazaré, será de lembrar as palavras que Ele dirigiu aos discípulos de todos os tempos: “Vós sois o sal da terra, vós sois a luz do mundo, vós sois como uma cidade situada no cimo de um monte”. Realmente, se a maioria dos cidadãos deste país são cristãos, se ser cristão é ser sal da terra, que preserva a corrupção, e se a sociedade actual está tão corrompida, a quem devemos lançar a culpa?
Os cristãos costumam reunir-se numa casa, onde há sempre uma luzinha acesa, a indicar a presença real do Senhor, que é a Luz em torno do qual se reúnem aqueles a quem Ele diz: “Vós sois a luz do mundo”. Por isso, o próprio Concílio Vat. II definiu a Igreja como “A Igreja é a Luz das Nações”. Os cristãos são ou devem ser a luz a apontar para o Norte – que é Jesus. Essa luz deve irradiar entre eles, tornando-os assim credíveis, face aos outros que andam desnorteados.
Ao dizer-vos isto, permitam-me partilhar convosco um pedaço da minha vida de jovem sacerdote, coadjutor de uma paróquia onde todos os dias encontrava jovens num grupo mais ou menos numeroso, para convivermos uns com os outros e para agirmos em consequência da nossa condição cristã. Não eram santos, mas de carne e osso, como todos os outros jovens.
Hoje, sereis capazes de admitir que, ganhando pouco, se cotizassem para pagar a um colega que teve a coragem de denunciar as injustiças, as indignidades que ocorriam na sua fábrica? Nos dias que correm podereis imaginar que jovens andassem numa tarde de domingo, de volta de um colega, ou até mais, procurando dissuadi-los de irem para a prostituição, desgastando a dignidade deles e a de quem por eles seria comprada a horas? Já vistes jovens, como eu vi tantas vezes, sentados em roda comigo, nos terrenos do futuro hospital, iluminados pela lua, cantando, rezando, partilhando as coisas boas e más de cada um?
Com frequência, via muitos deles na Eucaristia semanal, não tanto para lembrar os mortos mas por causa deles, que estavam vivos e para terem mais vida. Recordo que numa tarde de agosto, um me dizia: “Padre, venha ouvir-me de confissão porque não posso comungar e assim não me aguento nas canetas”. Isto é ser luz, ser sal cujo sabor ainda hoje, tão gratamente, me vem à boca.




