
XII – Domingo do Tempo Comum
21-06-2026O risco é parte substancial da condição humana. Não se pode fazer nada de sério neste mundo sem se expor, muitas vezes, ao fracasso. E a única maneira de nunca se equivocar é renunciar a toda a aventura por pura covardia.
Creio que a obsessão pela segurança é um dos mais graves obstáculos para realizar uma vida. Não excluo, claro está, a prudência, a reflexão antes da acção, o saber escolher as melhores circunstâncias para a empreender. Mas a falsa prudência que acaba por ser paralisante é insuportável.
Por isso, sinto pouca simpatia por aqueles que colocam a segurança como o maior valor da vida. Às vezes, vêm jovens interrogar-me sobre a sua vocação e perguntam: como estarei eu “seguro” de que Deus me chama? A estes respondo, invariavelmente: Não tens vocação e nunca a terás enquanto partires do conceito de segurança. Em toda a vocação, em todo o empreendimento há uma componente de risco. E o que não for capaz de se arriscar um pouco por aquilo que ama, é porque não ama nada. Todas as grandes coisas são inseguras; vêem-se por entre as trevas; é necessário avançar para elas por terreno desconhecido; por isso, toda a vocação, toda a empresa séria tem algo de aventura, de aposta. E implicam audácia e confiança.
Não estou apostando naturalmente na irreflexão, na frivolidade, no aventureirismo barato. O que quero dizer é que todo o amor supõe um salto no escuro: a gente lança-se para aquilo que ama e está certo que esse salto não será uma loucura, porque ninguém se engana quando vai para aquilo que merece ser amado.
A vida merece ser amada. E merece-o apesar de sabermos que nela haverá muitas quedas e muitos tropeços. Mas quem tiver medo de tropeçar alguma vez, não se levante da cama pela manhã. Assim evita sofrer. Porque já está morto.
José Luís Martín Descalzo




