
XXVI – Domingo do Tempo Comum
25-09-2026Recordo-me que, quando era criança, eu ou algum dos meus irmãos, depois de termos arreliado a nossa mãe, passados alguns instantes, éramos capazes de nos agarrar a ela para lhe darmos um beijo ou para lhe fazermos alguma carícia e ela, esbracejando, em jeito de que não queria aceitar aquele gesto, dizia: “foge, foge daqui impostor…só me arrelias, fizeste…e agora vens para mim!…”
Também Deus denuncia a hipocrisia, a imposturice de quem vem, para dentro da igreja dizer palavras bonitas e, passada a porta, no contacto com os outros faz tudo ao contrário do que disse ou ouviu.
De facto, este é sempre o grande perigo dos crentes: serem-no com a boca, quando devem sê-lo de coração e na vida. O grande perigo do cristianismo reside numa fé, numa vivência essencialmente formalista, ritualista, de palavras bonitas e de vidas ocas. A mesma atitude pode acontecer entre os homens, que por vezes, de frente, são capazes de dizer palavras elogiosas, muito simpáticas, e nas costas, tramam a sorte de quem as afagou.
Deus não se contenta com palavras, porque não se deixa enganar por elas ou pelas aparências. Dizer sim à mensagem de Cristo e não fazer esforço por agir segundo o que se disse é a hipocrisia das boas maneiras. Uma fé sem obras é morta e a linguagem da vida é mais importante que a linguagem dos lábios.
A religião de simples herança ou que é partilhada do meio social em que se vive, a religião do ir a esta ou aquela outra igreja onde vai o senhor fulano ou sicraninho, a religião do parecer bem não tem qualquer interesse.
O mesmo se diga do espalhafato que, às vezes, se faz dentro das nossas igrejas, mas que depois não tem tradução concreta na vida. É a religião do bombo.
Também hoje, e cada vez mais, aparece a religião dos bem-intencionados ou dos que apenas se comportam em função das tradições, que ainda têm o seu peso. Há os profissionais do sim, que vivem em perpétuo não, como também há os que julgaremos profissionais do não, estigmatizados, marginalizados, mas tendo um coração que bate, que é sensível, que empresta calor à vida de quem precisa, dando-lhes outro sopro. Por isso, sou levado a recordar as palavras de S. Tiago: “Mostra-me a tua fé sem obras e eu pelas obras te mostrarei a minha fé”.




