
XXXII – Domingo do Tempo Comum
07-11-2026Alguém me contou que um seu amigo estava gravemente doente. Tinha um problema grave no coração. Mandaram-no para um hospital, especializado em doenças cardíacas. Ao saber disto, a pessoa em causa foi fazer-lhe uma visita, precisamente no dia anterior ao da operação. Quando lá chegou, depois de uma troca de palavras, disse-lhe o doente: “Olha, vão operar-me ao coração e isto é uma questão de vida ou de morte. É possível que amanhã, por estas horas, eu possa estar morto”. O outro tratou de minimizar a importância da situação, mas o amigo disse-lhe: “Não procures enganar-me porque exigi dos médicos que me dissessem toda a verdade, nua e crua”. Então, o outro disse-lhe: “Olha se te vês assim, que me dizes da tua situação? Que sentes perante a hipótese ou a iminência da morte? Como vês a vida?”
O amigo doente, que era um padre com uma grande e rica experiência de vida disse-lhe: “Vejo as coisas muito claras. Se estivesses no meu lugar, rias-te de muitas coisas a que dás importância e darias muito mais valor a outras que descuidaste. Se Deus me desse a possibilidade de continuar a viver, muitas coisas mudariam na minha vida”.
A operação correu bem, mas o pós-operatório teve muitas complicações, e passadas semanas, morreu, não teve tempo para arranjar mais azeite, como reserva, para a sua lâmpada, isto é, para a sua vida.
Recordo também que, no meu tempo de seminário, tínhamos uns dias para preparar os exames. Chamávamos a esse tempo “os dias das repetições”.
Esta palavra ‘repetições’ supõe que não seria para estudar a matéria pela primeira vez, mas tão só para rever, refrescar a memória do que tinha sido dado ao longo do ano, enquanto se ficava com uma visão mais global das questões.
Para dizer-vos a verdade, ao longo do ano sempre me convenci que não faria nada de especial ao trabalhar, para assim corresponder ao esforço de quem muito fazia para eu poder estar lá, nunca fiz outra coisa senão dar à palavra ‘repetições’ o seu verdadeiro significado. Mas, encontrava colegas, deveras atrapalhados, a tremer perante o número de folhas, que ainda não tinham visto, uma única vez. Ponham-se a fazer conjecturas: “Isto não sai. Aquilo também não. Por isso…”
E quantas vezes, no exame, se viam “descalços” perante o professor que não desarmava e ameaçava com a repetição…
A vida é um assunto demasiado sério para a vivermos de uma forma irresponsável. Das questões, que no decurso do tempo, nos vão sendo apresentadas, um dia seremos chamados a exame. Ninguém nos poderá substituir, nem teremos segunda chamada. Por isso, façamos o que devemos fazer.


