
II – Domingo de Páscoa
11-04-2026
Vitae Informação | Edição 172
11-04-2026E vão oito dias sobre a Ressurreição. O acontecimento tinha irrompido, as dúvidas começaram a desvanecer-se mas, pelo sim e pelo não, era mais seguro trancar as portas. Não se falava noutra coisa e até as paredes tinham ouvidos. Se Jesus tivesse sido um pouco mais prudente, não lhe teria acontecido aquela desgraça. Às vezes Deus é complicado e vem complicar a vida dos outros. Jesus tinha tanta imaginação, tanta maneira de salvar o mundo e logo foi escolher a mais arriscada. Alguns discípulos pensavam até que, em vez dos malabarismos de morrer e ressuscitar, Jesus podia ter ficado sempre vivo. Seria muito mais bonito e não complicaria assim a vida dos outros. Estavam agora aqueles desgraçados com medo de mostrar a cara na rua e, mesmo dentro de casa, tinham de pôr sete trancas à porta.
Coragem-coragem, teve Tomé. Devia andar cheio, com um raspanete bem ensaiado para debitar a Jesus na primeira esquina em que o apanhasse. Fez-se mau, inteligente, original, não um Maria-vai-com-as-outras, crítico, implacável. O esperto que fazia a ultrapassagem quando todos estavam em bicha. O liberto de alienações e preconceitos. O frio, intelectual, positivo. Tomé era a lógica, o argumento, o racional, o amadurecido. O cérebro que olhava o coração por cima dos ombros. «Seus ingénuos», terá gritado, «não vedes que fomos enrolados no sentimento, não se abrem os vossos curtos olhos ao abismo de toda esta farsa? Não aprendereis, finalmente, o absurdo de acreditar? Se não O vir com estes olhos e O palpar com estas mãos, não acreditarei.»
«Não sejas incrédulo, Tomé, mas crente.»
Era Jesus:
«Felizes os que acreditam sem terem visto.»
Estou a imaginar o silêncio que se fez naquela desconcertante sala. Pressinto uma invasão de sagrado no coração dos discípulos. Vejo lá presente este Mundo trespassado também de insegurança e medo.




