
III – Domingo da Quaresma
07-03-2026Fui convidado para um almoço. Do meu lado esquerdo, ficou uma senhora de meia-idade, bem pintada, bem-disposta, simpática desde o início da refeição. Começou a fazer comentários com humor, próprios de quem parecia ser feliz, e querendo tornar felizes os que se encontravam com ela.
A nossa conversa, ocasionalmente, estendeu-se a outras pessoas. E pode dizer-se que ia animada, inclusive, pelas piadas que ela me mandava, como recheio das suas estridentes gargalhadas. Foi sempre correcta. Mas à medida que tudo isto ia acontecendo, comecei a perguntar aos meus botões aonde é que ela queria chegar. Mais ainda: que quereria esconder com tanto ruído?
A dada altura, fez-se um silêncio entre nós os dois. O meu olhar vago espalhava-se pela sala. Eis senão quando, a senhora voltou-se para mim e perguntou: “Sr. Padre, em que dias atende na igreja?” Dei-lhe a indicação desejada e disse-lhe: “Quando quiser apareça”. E ela apareceu. Não era a mesma, bem diferente. Começou por contar a sua história, a sua historia afectiva, com os trambolhões que tinha dado, as coisas incríveis que tinha feito por amar um homem que não era o seu marido.
O seu poço era fundo e vazio, cheio de frustrações. Esta mulher era uma verdadeira samaritana, infeliz, porque na busca do amor só tinha tido experiências de um mero “flirt”, que a tornaram numa gazela, correndo atrás do vento.
Hoje em dia, não faltam pessoas assim, que de muitas maneiras procuram esconder o seu vazio interior, o caminho inseguro, desnorteado e infeliz que marca as suas vidas. O que se passa a nível humano passa-se também no plano religioso.
Apesar de tantos amores, de tantas facilidades, os homens do nosso tempo sentem um vazio indizível, que enche as suas entranhas.
De facto, quando o homem deixa Deus, precisa de encontrar coisas que O substituam e que, em vez de o libertarem, o escravizam, que em vez de o tornarem feliz e de lhe proporcionarem a alegria e a segurança interior, o tornam mais triste e dependente de qualquer coisa, inclusive da bruxaria. A infidelidade no amor só causa intranquilidade, tristeza e insegurança.
As pessoas sentem-se insatisfeitas e não sabem porquê. Muitas vezes, essa insatisfação manifesta-se por comportamentos de quem, como a outra senhora, parece ser a pessoa, que ao longe, poderá ser considerada como a mais feliz. Realmente as alegrias do que é superficial, do que é medíocre poderão dar azo a estridentes gargalhadas (como no som dos instrumentos de sopro) porque não têm profundidade e o que as possa sustentar.
Em contrapartida, a paz e a alegria serena dos generosos podem produzir uma sagrada inveja, enquanto manifestações de quem saboreia a água viva, que o Senhor nos convida a beber.
Ao escrever-vos isto, dou-me conta do comportamento oposto da borboleta: quando ela esvoaça de noite, não se cansa de o fazer em volta da chama de uma luz falsa, que entretanto lhe vai queimar as asas. Quando é de dia e goza da luz verdadeira, livre e pacatamente, demora nas flores a segurar o néctar que a faz repousar. Por isso, Jesus dizia à samaritana: “Quem beber da água que Eu lhe der encontrará dentro de si uma fonte que jorra para a vida eterna”.




