
IV – Domingo da Quaresma
14-03-2026Há muitos anos atrás, um jovem meu amigo passava por uma crise de fé. Era dotado de uma inteligência muito aguda, com grande poder de argumentação. Para ele tudo tinha de ter uma explicação. Um dia, chegou a minha casa e disse-me: “Olhe, vou ler este livro e com a ajuda dele quero ver se Deus existe ou não, se a Igreja Católica é a verdadeira ou devo ir por outro caminho.” A que eu lhe respondi: “Não vás por aí, porque nunca lá chegarás. Deus, como qualquer pessoa, não se conhece através de um livro.” E, de facto, assim aconteceu.
Nos nossos dias, mercê de um tipo de ensino que temos nas escolas, muitos dos nossos jovens são levados a pensar e a dizer que só existe o que o homem é capaz de compreender e explicar. Se Deus não entra nesta categoria, logo não existe…
É caso para perguntar: Mas quem é o homem para ser critério de verdade? Será de admitir que pela razão humana alguém chegue à conclusão de que Deus existe ou não existe, seja isto ou aquilo? Será que o homem é capaz de dominar Deus? Então, Ele será um ídolo.
O evangelho de hoje, ao falar-nos de um cego de nascença é uma óptima oportunidade para chegarmos à conclusão de que, a respeito das coisas e sobretudo das pessoas, todos nós nascemos cegos. Mais ainda: por mais argutos que sejamos, não somos capazes de saber quem é esta ou aquela pessoa, lendo um ou mais tratados científicos sobre ela. Seria ridículo pensar isto. As pessoas não se conhecem por um livro ou pela análise ao microscópio.
O colocarmos sobre a mesa de trabalho a fé e a razão não nos leva a nada. Ninguém se enamora porque enamorar-se é belo ou porque leu os mais variados tratados sobre o enamoramento. Alguém só se enamora quando encontra uma pessoa que lhe fez surgir o amor. Também alguém só chegará à fé, não através de um livro, mas de alguém que começou por lhe merecer a confiança, e a quem vai aderindo, fazendo sua a vida dela. Não há amor que não seja o amor de alguém. Não há fé que não seja a fé em alguém. Por isso, expressões como estas: “Eu creio que haja um ser superior que nos domine ou eu creio porque a gente tem de acreditar em algo (mesmo de chocolate), poderão indiciar que essa pessoa está aberta ao sobrenatural, mas longe de chegar à fé.
Quando se ama não se ama algo. Quando se crê não se crê em algo, mas alguém. E esse Alguém é a pessoa de Cristo. Ele é a Luz, a luz de um amigo que, pouco a pouco, pelo que é e pela sua Palavra dirige o coração humano para ver o Invisível, o que não enxergamos com os olhos do corpo ou da inteligência. Sim, porque ninguém pode afirmar que só existe o que vemos, o que entendemos. Por exemplo, Quando era viva a minha mãe, ninguém poderia afirmar que era falso o que só ela via e dizia a meu respeito, que entretanto, passava desapercebido às outras pessoas.
Quanto mais profundas são as realidades a conhecer, tanto mais escapam aos olhos da nossa inteligência. As tais realidades só são percetíveis pela sensibilidade do nosso coração. Se esta não se cultiva, é como se não existissem. E, como o caso do evangelho o comprova, ninguém começa a ser crente de imediato. É todo um processo de “iluminação”, que começa no dia do nosso baptismo, até que, um dia, ao vermos em Quem acreditamos, deixaremos de encontrar sombras, que escondem a Luz.




