
Solenidade de Pentecostes
23-05-2026
Solenidade de Pentecostes: O Fim da Páscoa e o Início da Missão
23-05-2026Devo confessar-vos que, enquanto aluno, ao longo do ano não fazia como a cigarra, mas como a formiga: – levava as coisas seguidinhas, direitas, por perto. Eis porque, quando chegava a época dos exames, o tempo das repetições, sem aulas, era apenas para refrescar a matéria. Talvez por isso, detestava os exames. Para mim não faziam sentido. Se tinha “dores de barriga”, era pela ansiedade e não pelo medo que os exames me provocavam. Entretanto, recordo-me bem que nos últimos anos comecei a ver as coisas de outra maneira, chegando à conclusão de que os exames finais se tornavam muito positivos porque me permitiam uma outra leitura das matérias, concretamente, não ficava apenas com uma visão parcelar das coisas, mas com uma noção conjunta, interligada entre elas.
No respeitante à minha vida de homem crente também fiz uma experiência semelhante. Já era padre, mas não há muitos anos. Para além do curso de filosofia tinha feito quatro anos de teologia. Entendia e falava das coisas de Jesus, nomeadamente nas celebrações a que presidia. Desde criança ouvi deliciosamente o meu avô a contar-me “histórias da Bíblia”. Nas aulas da Sagrada Escritura, era com agrado que escutava o meu mestre, embora reconheça que o respectivo estudo fosse muito frio, intelectualizado, referenciado a doutrinas, a teorias.
Um dia, encontrava-me sozinho, sentado sobre um penedo, em férias, gozando o sol quentinho de uma linda praia alentejana. Estava a ler uma obra de dois volumes sobre o mistério da Igreja, que retenho como uma relíquia, de importância, logo a seguir ao Evangelho. A dada altura, surgiu um novo capítulo sobre um assunto que, em tempos, me tinha deixado verdadeiramente “ougado” ao ver e ouvir na televisão o que mais tarde foi o cardeal António Ribeiro. Esse assunto era o que se relacionava com a alma da Igreja — o Espírito Santo. Tornou-se para mim tão encantador e luminoso que, entre lágrimas de emoção devorava as páginas pela alegria interior, pela luz que me faziam no coração, pelo calor com que me sentia acolhido por Deus, pela forma nova como comecei a ver a pessoa de Jesus, a partir do mistério da Igreja, e a entender, a interligar esta e aquela passagem do Evangelho. Devo isto à acção do Espírito Santo. Aqui quero agradecer, louvar e pedir que me anime e impulsione.
Finalmente, e falando da sua importância para todos nós, muito embora poucos o reconheçam, gostaria de lembrar-vos que, normalmente, ao fazermos um requerimento ao senhor presidente, ao senhor ministro ou director, usamos um formulário burocrático, extraído de um modelo mais ou menos universal. É uma cópia fria de um modelo tal, de uma letra morta, que contrasta com a linguagem do nosso dia-a-dia. Mais uma vez, se verifica a existência de um grande abismo entre a verdade e o artifício.
Deus não é presidente, ministro ou director da empresa, chamada Igreja. Mas na realidade, normalmente, nos dirigimos a Ele usando palavras fotocopiadas, que nos apareceram neste ou naquele devocionário, ou legadas por alguma ladainha, mais ou menos repetida.
O Espírito Santo é quem nos leva a ultrapassar isto tudo, a burocracia da religião, a frieza e o sem sabor de uma fé ritualista, de um académico da palavra, de um doutor da religião. O Espírito é quem dá vida, criatividade e liberdade aos filhos de Deus.



