
XV – Domingo do Tempo Comum
12-07-2026
Vitae Informação | Edição 175
12-07-2026“Dou por mim, às vezes, quixotescamente generoso. A semear palavras, revoltas, esperanças. A semear trabalho, entusiasmo, juventude. A semear prudência, lucidez, serenidade. Dou por mim a semear.
E a olhar, nervoso, para a terra, a ver se desabrocha a semente, se espreita o verde, se emerge a vida.
Olho outra vez, para a terra. Recapitulo o esforço de lançar a semente. Fi-lo – penso – com jeito, carinho e esperança. Acho que tenho um certo direito a ver o fruto. Se desafiei o trabalho prosaico do Inverno por que não exigir a poesia da Primavera? Tenho, por isso, pressa. Luto com o tempo. Fixo de novo o sulco do arado, recordo os suores da sementeira, revejo os prazos. Que é feito da minha semente? Que mal se terá introduzido? Que temporal terá varrido o meu esforço?
A terra nada responde ao meu semear. Impassível, indiferente, irónica.
Agora pergunto por mim. O que me terá faltado. Vou aos livros. Pergunto aos agricultores. Olho outra vez, longamente, a terra. É o silêncio e a aridez que me explicam: deve olhar-se a terra antes de semear. Depois, apenas se espera.
Espero.
Torno a esperar. Sem pressas. Jogando na eternidade.
Para quê estar nervoso? Deus não tem relógio. A velocidade é uma invenção do orgulho. Para quê prolongar os olhos nas imagens? Inventar frequências além das que o natural ouvido humano recebe? Para quê motores para andarmos depressa? Se Deus quisesse que voássemos, ter-nos-ia dado asas.
Eu cá não tenho asas. Compro sapatos – e a que preço – se não quero ferir os pés na calçada. Não vale a pena ensaiar grandes voos. Vamos esperando que a vida se faça e há sempre uns maduros que vão à frente desbravando. Tenho pouco jeito para mártir. O melhor é esperar que aconteça. O mundo sempre se fez aos solavancos. Os heróis não passam de utópicos vaidosos. Não sou eu que vou salvar a Humanidade.
Era espera sem semear.
E há um tempo para semear e um tempo para esperar.
É na confusão dos dois que me desencontro.”
Pe. António Rego




