
XX – Domingo do Tempo Comum – “Mulher, é grande a tua fé”
15-08-2026Um dia destes, fui ao Porto. Francamente, não o conheço. A par de muitas casas com portas fechadas, cheias de pichagens, tristes, abandonadas, sinais de um tempo que morreu, encontro aqui e além centenas de pessoas a pé ou a sair de autocarros, que enchem as ruas na nossa cidade, neste momento, a ganhar um outro estatuto. Se é procurada e amada por gente que vem de tão longe, consegue-o por mérito próprio e não por subsídios, por esmolas, que caiam da mesa dos ricos, a morarem lá para o sul.
Dá gosto ver este fervilhar de pessoas a seguirem os guias, a cruzarem-se connosco nos passeios, ou diante dos monumentos, a consultarem os mapas da cidade, a levantarem-se nos topos dos autocarros de dois andares para captarem o melhor ângulo ou esta ou aquela faceta da cidade, cujo charme e encanto, normalmente, passa despercebido dos que nela residem e a visitam com frequência.
Francamente, gosto que gostem do meu país, da minha cidade tão bonita, tão capaz mas tão desprezada pelos seus dirigentes, que podiam ter feito dela um dos centros turísticos e culturais mais interessantes do mundo.
Olhando para esta gente que faz fervilhar a cidade e contrariar pela positiva o ar deprimido de tantos dos seus filhos, verifico que muitos dos visitantes são jovens, de mochilas às costas, normalmente mais contidos nos gastos, outros são casais com ou sem filhos a acompanhá-los, e muitos mais os reformados que assim valorizam o tempo livre da sua reforma.
E quantos portugueses, jovens e adultos não os olharão com uma certa inveja, enquanto vagueiam pela cidade interrogando-se onde estará uma porta a que possam recorrer para encontrar trabalho, ou qual será a pessoa a que possam recorrer para arranjarem uma colocação, passando assim dias, meses e anos à procura de emprego, quando a nossa Lei Constitucional nos lembra e ordena que todos tenham trabalho.
Tudo isto vem a respeito do que nos diz o evangelho de hoje. Os judeus passeavam-se orgulhosos diante do templo de Jerusalém. Tê-lo era uma garantia de que jamais Israel seria abandonado por Deus. Os ritos, as orações que lá se realizavam para muitos, eram a contrapartida para se manterem imperturbáveis, convictos e orgulhosos. Eis porque, a mensagem de Jesus — o profeta de Nazaré, não tinha qualquer impacto para eles.
Os primeiros discípulos de Jesus foram marcados por esta maneira presunçosa e exclusivista de pensar e de viver, a ponto de considerarem que os outros — os estrangeiros — não tinham qualquer cabimento no reino de Deus. Viam-nos como cães, como gente impura, e por isso imprópria…
Quantos não evocaram Jesus para justificarem este farisaísmo, de que nos fala o evangelho de hoje. Mas, não sem convulsões e pressões sucessivas foram os estrageiros que vieram aproveitar e valorizar os que os outros desprezaram da novidade trazida por Jesus. Eu sinto-me feliz por ser deste grupo.


