
Solenidade da Santíssima Trindade
30-05-2026Recordo-me que ao andar na catequese (nessa altura, e não a despropósito, chamava-se doutrina, porque a verdadeira catequese era-me feita em casa pelo testemunho da minha família), uma das perguntas sagradas que me faziam era esta: “Quem é Deus?”. Como verdadeiros papagaios, respondíamos logo, em coro: “Deus é um ser infinitamente perfeito, nosso legislador e remunerador”. De facto, dizia isto e muito mais, sem hesitação, mas não compreendia nada (não sei se vós compreendeis).
Por exemplo, andei a procurar o sentido da palavra “remunerador” até aos meus 14/15 anos, altura em que vim a saber que significava: Salvador. Não sei se alguém é capaz de acreditar num ser infinitamente perfeito. Que se sabe dele? E sendo infinitamente perfeito, que pode a nossa fraca capacidade entender e falar dele?
Hoje, quero compreender e aceitar razões para compreender esta resposta e o tipo de pergunta, porque de facto, Deus não se define. Qual é a pessoa que se define desta ou de outra forma? Não estará para além de tudo o que se possa dizer dela? Ao tentar definir Deus, o homem não está a assumir a atitude de quem julga poder dominá-lo, esgotar o seu ser e por isso, transformá-lo numa realidade que maneja, de que põe e dispõe, num verdadeiro ídolo?
Deus não se define, mostra-se, procura-se na sua intimidade de uma forma consistente, progressiva, como assim acontece com qualquer pessoa. Só se definem as coisas mortas, porque o conhecimento que temos delas, manter-se-á amanhã.
Digo isto num dia em que a Igreja Diocesana celebra o Dia Diocesano da Família inclusive, celebrando o jubileu de centenas de casais, cujo comportamento parece estar em vias de extinção porque, como verificais, dentro de poucos anos, já ninguém vai falar de “marido” e “esposa”, mas tão só de companheiro (companheira), que não precisam de casar porque, como se ouve, “se temos o anel, para que precisamos do papel?”. Para além disso, são muitos os que não se casam justificando a sua decisão com o facto de, depois de o terem feito, selaram as suas vidas com um verdadeiro fracasso. Outros ainda dizem: “Para que precisamos de nos casar? Pela Igreja que adianta? Não é lá que vamos encontrar o amor. Amamo-nos e isto nos basta”.
Estas são algumas das várias afirmações que estão por detrás de uma situação nova, que estamos a viver, e cujas consequências nem sequer imaginamos.
Para além disso, o que atrás foi dito supõe que, de uma forma geral, para além de não quererem assumir compromissos, responsabilidades, para além de rejeitarem tudo o que é institucional, dado o desencanto e o “abandalhamento” das instituições, inclusive a família, as pessoas estão longe de possuírem uma noção minimamente exacta do que é o casamento pela Igreja – assunto de que não me vou ocupar agora, embora muito necessário. Apenas lembro que em muitos casos o casamento pela Igreja falhou por razões de formação e honestidade humana. Depois, porque muitos tratam o casamento católico como uma mera cerimónia na Igreja. Sabem lá o que é o sacramento do matrimónio!…
Permitam-me que apenas lembre isto: – o sacramento do matrimónio é uma vida e não um momento. Não é para outras pessoas senão para os crentes em Cristo, e como tais, para pessoas que têm uma outra perspectiva de encarar e viver a vida, neste caso, reconhecendo que não podendo ser visto por nós, não podendo Deus dizer-nos directamento o que é o seu amor, chama homem e mulher para que se abram cada vez mais ao amor que vem dEle e assim serem sinais do Invisível, encontrando na sua união uma escola de perfeição, um caminho de felicidade.
Querem saber quem Deus é? Olhem para o casal cristão. Esta é a verdade, mas tantas vezes por conseguir.




