
X – Domingo do Tempo Comum
05-06-2026Nunca gostei de ser médico, porque nunca gostei daquilo que eles mais tratam: sofrer e ver sofrer. Para mim, a imagem do médico anda sempre associada à dor, ao sangue, ao corte, à purgação, que sempre me impressionaram pela negativa. Em criança, tinha medo do médico. Graças a Deus, que nunca tive a necessidade de verdadeiramente o procurar, a não ser para me livrar do sarampo. E quando uma minha irmã adoeceu com uma pneumonia e precisou que o Sr. Doutor a viesse examinar e até dar-lhe uma “pica”, quando o vi fazê-lo e ouvi o choro dela, senti uma tal repulsa e revolta interior, que imediatamente saí do quarto a correr e a desfiar uma ladainha, que não era a de louvar os santos.
Cresci. Infelizmente, já tenho precisado deles, e embora continue a não gostar do que fazem, admiro-os pelo seu profissionalismo, pelo seu saber adquirido, pela sua intuição natural, pela coragem e doação, pela sua capacidade de entrega e de amor. O médico é uma carga de vida, detentor de um enorme poder, que merece o nosso respeito. A bata branca é um monumento que todos admiramos e a que, mais tarde ou mais cedo, vamos prestar as nossas homenagens. Mas apesar de todo o seu poder, do seu natural prestígio e dos meios que dispõe, só por si, o médico não consegue nada. É preciso que os doentes (o material que eles tratam) reconheçam o seu mal, queiram recorrer ao médico, confiem nele e aceitem ser tratados. Para além disso, é precisa a perseverança, a paciência, que tanto tem de ser da parte do médico, como do paciente, até porque, neste capítulo, não há prazos.
Traduzindo por uma imagem o seu agir e o tipo de pessoas que acolhia, Jesus identificava-se como um médico, que não anda à procura dos que estão sãos, mas dos doentes, que não anda à procura dos justos, mas dos pecadores. Eis porque, não tinha medo nem vergonha de a todos, sem quaisquer méritos ou exclusivismo, tratar das feridas e oferecer o respectivo remédio, desde que reconhecessem o seu mal.
Como bom samaritano, aproximava-se deles, debruçava-se sobre os seus males e reabilitava-os para a vida pela acção do unguento, que opera os maiores milagres — o amor gratuito.
Para os homens da lei, este contacto, esta massagem do coração incomodava-os, escandalizava-os, a ponto de dizerem que Jesus contraíra a impureza, a doença que tratava – o pecado. Ao que Ele responde: – a Deus, Santo e fonte de santidade agrada mais a misericórdia em favor dos pecadores, que os ritos e os méritos dos que se julgam santos.



