
XVIII – Domingo do Tempo Comum – “Dai-lhes Vós de Comer”
31-07-2026
Nos Caminhos de São Bento da Porta Aberta
31-07-2026Ao iniciar este comentário não posso esquecer as crianças, que há tempos encontrei na India, cheias de fome, com uma cara escorreita, já envelhecida, com uma roupa que não sei como aquecia o corpo, descalças, com os pés enegrecidos pela sujidade de muitos dias, sempre a correr atrás de alguém, que o seu “feeling” descobrisse como sensível para o apelo dramático da fome, expresso pelos dedinhos da sua mão direita, a dizerem-nos que também precisavam de comer.
Meu Deus, como é possível passar ao lado, caminhar em frente, alheio a esta inocência, a esta injustiça e a este brado tão comovente de quem se levanta com fome e todos os dias faz quilómetros, virando-se para um lado e para outro, à espera de quem possa enganar tanto sofrimento…
Em contrapartida, não posso deixar de evocar por exemplo, aqueles que morrem de overdose de droga ou de álcool, os que acompanhados de guarda-costas, os que são admirados ainda jovens, mas cansados de uma vida inútil.
Cada vez mais me assusta e impressiona encontrar tanta gente enfastiada neste mundo, que é o nosso. São pessoas que vivem sem ilusões, que se deixam arrastar pelas horas, sem descobrir nada que as entusiasme, e até mesmo, que lhes interesse. Todos os dias são iguais e tudo as cansa. Cansa-as o mal, cansa-as o bem, talvez mais o bem que o mal, até porque pertencem a um sector sócio-económico, que não é dos mais desprotegidos.
Ao contrário dos meninos da India, esta gente anda enfastiada. E não há doença pior e mais difícil do que esta. Há quem diga que as duas impedem muito menos a felicidade que o fastio. E é verdade. E inclusivé, reparando em pessoas das nossas assembleias dominicais, olhando para um lado e para outro, bocejando, distraindo-se com isto e com aquilo, sem prestar um mínimo de atenção à Palavra de Deus, lembro-me das multidões que andavam atrás de Jesus, havia já três dias, cheias de fome, cansadas, mas encantadas com a novidade que saía da boca dEle.
Ó Jesus, como é possível matar a fome a uns que nunca ouviram falar do Teu Evangelho e da Igreja como espaço de abundância, e a outros que a abandonaram, trocando-Te pelas coisas, com que pretendem encher o seu coração. E Tu continuas a desafiar-nos, dizendo: “Dai-lhes vós de comer.”




